Durante uma conversa com a curadora e pesquisadora Giulia França, nós falávamos inicialmente sobre deslocamentos, clima e paisagem. Eu havia acabado de retornar do Cerrado mineiro para Apucarana, no Paraná. Bastaram poucas centenas de quilômetros para eu sentir uma mudança brusca na temperatura, na luz, na umidade do ar e até mesmo na sensação do corpo diante da paisagem.
Contudo, como quase sempre acontece dentro da arte, uma conversa aparentemente cotidiana acabou se transformando em uma reflexão muito mais profunda sobre memória, ancestralidade e matéria. Naquele momento, eu mostrava para Giulia algumas imagens das instalações que eu venho produzindo dentro da pesquisa da Artecologia.
O Barbante Como Vínculo e Cordão Umbilical
Eu apresentei fotografias de estruturas feitas com tubetes, couro, plástico reciclado, bandejas, cipós e barbantes atravessando o espaço como linhas orgânicas. Consequentemente, foi justamente falando sobre o barbante que eu percebi algo importante. Ele talvez atue como um dos materiais mais simbólicos de toda a minha trajetória artística.

(Reprodução: Arquivo Instituto ArtEco)
O barbante nunca funcionou apenas como um elemento construtivo. Ele representa um vínculo. Ele cria uma linha de continuidade. Dessa forma, ele atua como um verdadeiro cordão umbilical.
Portanto, existe algo de profundamente ancestral nesse fio. A minha bisavó também trabalhava com linhas, tecidos e costuras. Ela mantinha um gesto silencioso de construção manual atravessando gerações da minha família. Quando eu utilizo barbantes nas instalações, nas performances e nas pinturas, eu percebo que não estou apenas trabalhando com um material. Eu estou acessando uma memória que antecede a própria linguagem.
No desenho, nós chamamos isso de linha. Na natureza, nós chamamos de raiz, cipó, micélio ou nervura. No corpo humano, nós chamamos de cordão umbilical. Tudo se conecta através de linhas. E, talvez, a minha obra busque revelar exatamente isso, evidenciando os sistemas invisíveis que sustentam a vida.
Barbante Umbilical: Cartografias da Experiência e a Inteligência da Natureza
Durante a conversa, nós comentávamos sobre a artista Edith Derdyk e as suas instalações feitas com fios atravessando o espaço. Sendo assim, eu lembrei imediatamente de estudos que eu havia realizado muitos anos atrás sobre desenho no campo expandido. Aquilo ficou guardado em algum lugar da memória até reaparecer agora, dentro da Artecologia, de uma forma completamente transformada.

Nas performances que eu realizei recentemente, eu trabalhei com quilômetros de barbante desenrolando enquanto eu caminhava pelo espaço. O fio acompanhava o percurso do corpo, criando uma espécie de cartografia orgânica da experiência.
Enquanto eu caminhava, eu compreendi que aquele gesto possuía uma relação muito próxima com antigos processos humanos de exploração do desconhecido. O ato assemelha-se a quem adentra uma floresta ou um labirinto deixando marcas para conseguir retornar às origens.
O barbante transforma-se, então, em um instrumento de orientação existencial. Ele estabelece uma ligação entre presente e memória. Também atua entre deslocamento e pertencimento. Ele age entre ruptura e retorno.

(Reprodução: Arquivo Instituto ArtEco)
Na restauração ecológica, nós buscamos constantemente retornar à inteligência da grandiosa Natureza para compreender como um ecossistema se reorganiza. Talvez o barbante simbolize justamente isso, funcionando como um fio de reconexão com aquilo que nós fomos perdendo ao longo da modernidade.
A Interdependência e as Estruturas de Abrigo
Quando eu utilizo o algodão nas performances, existe ainda outra camada simbólica importante, pois o barbante nasce de uma fibra vegetal. Depois, o processo fragmenta, distribui e compartilha este material com outras pessoas. Esses pequenos fragmentos funcionam quase como propágulos simbólicos, atuando como pequenas sementes poéticas capazes de carregar memória e disseminação.

Dentro da Artecologia, eu gosto muito da ideia de que uma obra nunca termina completamente em si mesma. Ela continua reverberando. Ela continua propagando. Subitamente, ela continua criando novas conexões. Talvez por isso o barbante apareça tantas vezes dentro do meu trabalho. Ele materializa visualmente aquilo que eu considero essencial na existência, que é a interdependência.
Durante a conversa com Giulia, nós também falávamos sobre as instalações chamadas Teia, pertencentes à série Abrigos. Eu inspiro essas estruturas na lógica organizacional das aranhas, mas eu as construo a partir de aparas plásticas, fibras industriais e elementos orgânicos. Essas tramas criam espaços de abrigo, tensão e coexistência. A teia compõe uma arquitetura da relação. Nada nela existe isoladamente.

Cada linha depende da outra para sustentar a estrutura inteira. Isso aproxima-se profundamente da lógica ecológica e também da própria condição humana. Nenhum organismo vive sozinho. Nenhuma consciência se forma isoladamente. Tudo depende de vínculos.
O Tempo Como Coautor e a Regeneração Contínua
Ao mesmo tempo, as minhas pesquisas também atravessam outros materiais, como couro, plástico termomodelado, ferrugem, fungos e resíduos industriais. O couro, que eu moldo através da técnica de wet molding, ganha formas quase orgânicas, enquanto o plástico reciclado sofre processos de termomodelagem que o transformam em estruturas híbridas entre o biológico e o industrial.

O que me interessa nesses materiais é justamente a ação do tempo. O plástico exposto ao ambiente sofre rachaduras, desbotamentos e incorpora fungos e sujeiras do próprio espaço.
Dessa forma, o tempo passa a atuar como coautor da obra. Assim como a ferrugem nas obras de José Bechara revela processos de transformação da matéria, eu também busco incorporar essa memória temporal dentro das instalações. A Natureza nunca é estática. Tudo está em transformação. Tudo está em decomposição e regeneração simultaneamente.
Talvez por isso eu não veja mais os materiais industriais apenas como resíduos. Eles passam a carregar história, desgaste, clima, luz, umidade e tempo, tornando-se verdadeiros organismos de memória. E o barbante continua ali. Ele conecta todas essas camadas. Ele age como um sistema circulatório invisível atravessando a obra inteira.
Hoje, eu entendo que a Artecologia talvez seja exatamente isso, funcionando como uma tentativa de reconstruir vínculos entre matéria, grandiosa Natureza, memória e consciência. Portanto, o barbante umbilical é um dos exemplos disso,
O movimento firma uma tentativa de lembrar que ainda existe um fio nos ligando ao mundo natural, tal qual um barbante. Nós precisamos resgatar isso, mesmo que muitas vezes nós tenhamos esquecido desta conexão.